Total de visualizações de página

quarta-feira, 26 de julho de 2017

O roedor de osso

Aquele que não contou as jabuticabas, que não contou as pitangas e ficou rindo do tempo. Virei o medíocre, aquele do ego inflado, invejoso que cobiça o talento alheio.

Meus projetos continuam absurdos, quero conquistar cada coração que conheço, quero abraçar o mundo e ditar regras. Escrever o manifesto do fim do mundo, sem ao menos saber escrever.

Continuo criando normas inúteis, registradas em atas que nunca serão lidas. Abraço minha imaturidade eterna, celebrando reuniões sociais, discutindo política como um rinoceronte tentando ser o presidente da merda nenhuma.

E agora, lamento de estar, de ser apenas o roedor de osso. Fico triste em perceber ser o alguém que tem poucas jabuticabas na bacia, que convive com pessoas que talvez sejam menos humanas, que vibram com minha vitória inexistente e celebram as injustiças e um mundo vil e corrupto.

O Roedor de osso que caminha ao lado do nada.

Que ama em fraude

O roedor de osso sem essência.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

O Encontro

Em uma noite ele recebeu um telefonema que nunca mais esquecerá... Do outro lado da linha uma voz que informava, sua jovem esposa acabará de falecer, atropelada na região central da cidade. Um soco no estômago, um ar seco e pesado, a cabeça rodando, desespero e nenhuma lágrima.

Olhou para o berço e viu sua filha de pouco mais de um ano... Não sabia como seria, como viver ou sobreviver sem sua companheira, a mulher, a mãe a parceira de vida.

Aprendeu na marra, das fraldas ao vestido da festa junina na escolinha, das bonecas, do amor, carinho, sorriso, do choro sentido de ambos pela falta que ela sempre fez... Ela cresceu feliz, com amigos e amigas, tios e tias, primos, primas, avós, e ele, o pai.

Ele não teve outra mulher, não conseguiu encontrar uma parceira de vida. Ela cresceu ainda mais, virou mulher, estudou, trabalhou, e mudou para perto do mar...

Ficaram distantes. Ele ligava, queria saber se ela estava comendo direito, se estava bebendo água, como era o dia, a cidade, se tinha namorado... Ela só pensava em trabalho.

Ele pedia para ela vir mais vezes pra casa, que sempre seria dela, mandava mensagens, comprava os ingredientes da sua comida predileta e muitas vezes ela não vinha. Tinha muito trabalho ou estava cansada.

Ele queria ir, mas ela pedia, “espera mais uma semana”...

Um dia ele foi... Perdido em pensamentos de saudades, morreu atropelado, como a companheira que já havia partido há anos.

Estava mais fácil ver a esposa que a filha.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Receita de Tristeza

Primeiro, lembre-se de dias sem sol, de lágrimas, discussões e mágoas.

Depois junte um monte de pensamentos negativos e olhares perdidos, mentiras e misture com bastante desilusão...

Pegue um copo americano e encha de cerveja barata, em outro, uma dose de cachaça industrial, da mais vagabunda. Um trago de cigarro paraguaio ao som de alguma música cantada por alguma dupla de música "sertaneja universitária" atual.

Acrescente também a fatura do cartão de crédito estourada, o desemprego de meses, a vizinha chata, a pregação religiosa, o ônibus atrasado, ser enganado e um tornozelo torcido...

Finalize com um domingo chuvoso, a goleada sofrida no clássico e nenhum analgésico para tomar antes de tentar dormir.

E passe mais uma noite em claro!

segunda-feira, 27 de março de 2017

Para vender sonhos é preciso fechar os olhos.

Olhos claros sofridos, lágrimas secas pela tristeza, melodia da solidão, noites de luta sem sorrisos, dias amargos de ódio.

Um copo de alguma coisa sem gelo, flertes falsos, cigarros com pó e uma dança forçada. Sexo com alguém, e outro, quantas vezes, não existe fim. Nenhum abraço ou bom dia, apenas um chuveiro e uma Coca cola. Não precisa de almoço, mas sono.

Dinheiro de batalhas tristes, cortina cinza, velha, rasgada. Um beijo sem gosto, um tapa no rosto e muitos mundos diferentes, realidade assustadora, o relógio não para, o mundo também. Não existe nenhum modelo definido, cada qual com seu odor, suas frustrações ou desprezo. A rua não escolhe rosto, o caminho é curto e amargo.

Beleza roubada sem poesia, vidas secas sem sol ou sertão, o telefone precisa tocar, ela aprendeu que para vender sonhos, é preciso fechar os olhos e esquecer qualquer forma de amor.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

O que o rádio toca?

Antes do tocar do despertador, bem antes das buzinas e barulhos da cidade, ela estava em pé, tomando seu café com pão amanhecido, ouvindo alguma besta gritar palavras de ordens em uma estação de rádio qualquer. Eram palavras sem sentido, uma espécie de oração que preenchia um vazio, não existia mais ninguém naquele apartamento, apenas sua solidão.

Ele dirigia rápido, julgava colegas mentalmente, e tinha nojo de tocar nas mãos das pessoas. Tinha sempre álcool em gel, muitas vezes estacionava em vagas especais de idosos ou deficientes, era fã do comentarista de uma rádio popular que também gritava palavras de ordens. Era sua única companhia pela manhã.

Agora era uma música, melodia animada, letra que contava a história de uma festa em algum canto, bebidas, traição, lágrimas e vingança. Na canção a mulher é ridicularizada e o cantor solta gritos histéricos sem sentido. Alguém ouvindo por ouvir, limpando um canto qualquer e pensando se teria tempo e dinheiro para almoçar.

No fim do expediente uma carreira esticada, mais um tiro, olhos fixos no espelho e mais uma noite. No carro o som das dez melhores do dia até o bar descolado.

E nos solavancos do ônibus público, em pé, perdida em pensamentos e lutando contra o cansaço, no fone de ouvido ela desliga o rádio na "Hora do Brasil".

O que o rádio toca?








terça-feira, 28 de junho de 2016

Fabiana tinha tantos defeitos...

Ela nunca foi uma pessoa pontual, não era a mais bela das moças do bairro e muito menos das mais feias, tinha seu charme, ruiva, olhos claros. Bebia, fumava, gostava da noite, personalidade forte, inteligente, geniosa, muitas vezes até assustava seus amigos, amigas e admiradores.

Um dia, Fabiana conheceu Orestes...

Moço alto, cabelos claros, inteligente e com ideais semelhantes aos dela. Não era muito da noite, calmo, bem humorado e com o coração machucado. Um rapaz muito educado, gentil e simples. Havia sido abandonado por outra mulher, depois de alguns carnavais, tinha o sofrimento no olhar.

Dançaram uma vez, ela um pouco “alta” pelos drinques que já havia tomado, ele também. Era uma música antiga, eles se beijaram...

E beijaram outras tantas vezes e muitas vezes...

Ela sonhou com um mundo melhor, ele também acreditava no justo, com igualdade para todos, com dias felizes. Lutavam por eles, por familiares e amigos, por todos. Um dia esse sonho trincou. O mundo deu “passa moleque” e ambos ficaram tristes e perdidos.

Orestes, ainda muito magoado daqueles antigos carnavais, foi aos poucos deixando Fabiana, esquecendo-se de sua presença, de seu cheiro e riso. Ela não queria aceitar, também tinha um coração baqueado, mas acreditava no olhar dele, para ela, aquele olhar melancólico, era o melhor do moço.

Fabiana não desistiu, recusou-se a jogar a toalha. Buscou, escreveu, sorriu e até chorou...

Ele foi ficando cada vez mais indiferente, distante, parecia que nunca havia conhecido aquela moça. Ela sofreu, ainda sofre, mas mudou a cor do cabelo, conheceu outras pessoas interessantes, continua tomando sua cerveja, ouvindo suas músicas, sorrindo para os amigos e de vez em quando, até recebe uns convites pra dançar...

Fabiana tinha muitos defeitos, o pior era não saber esquecer...

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Uma quarta-feira qualquer...

Acendeu a vela para enxergar o velho e querido rádio de pilha, companheiro único de suas noites de lua e chuvas. Fez uma curta oração, uma lágrima escorreu, sintonizou na estação predileta e antes da rápida voz ganhar espaço em seu quase vazio quarto, relembrou de glórias gravadas em seu peito, quando podia caminhar, correr, suar e cantar. A camisa surrada não lhe vestia mais, agora era um símbolo, lembrança de anos, quando mais lágrimas insistiam, teimavam em cair, eram secas pelo manto...


A narração do rádio era quase um tango, ora um samba, balão que subia e descia, um corpo de impedimento, uma cabeça salvadora, a defesa cantada e um grito suspenso. Em sua cabeça lembranças de sol escaldante, cimento quente, broncas e sorrisos e uma dança suspensa de bandeiras e papéis picados, canções importais. Ainda podia sentir o cheiro da grama molhada em noites de chuvas, do barulho das solas de sapato em noites de derrotas e principalmente da folia e abraços dos amigos que ficaram apenas nestas lembranças


Em uma rápida troca de passes, deixando confuso até mesmo seus pensamentos, o baque no peito e um grito de gol, era deles, não era poesia, sim tragédia, como um soco no estômago, sem ar, mentalizou um xingamento qualquer e ouvindo os detalhes do repórter de campo, culpou alguém pela raiva.


O sofrimento corria em suas veias, ouvia que nada dava certo e imaginava cada momento, será que poderia fazer alguma diferença seu coração batendo mais forte? Desespero era o que sentia, uma tristeza por não estar presente e pensava, que se lá estivesse, seu coração bateria tão forte naquele estádio que deixariam os adversários surdos. Neste momento outro grito e o som da massa ao fundo, era a música do gol, muitas lágrimas, o beijo no escudo, o agradecimento para todos os deuses...


Antes do apito final começou a fazer contas, não para o café do dia seguinte ou almoço, mas para a classificação. Aliás, nem lembrou que naquela quinta-feira seguinte teria que mesmo com dificuldades para andar, defender algum trocado, que dependeria de outros para tomar um café qualquer.

Foi dormir feliz, abraçado ao seu manto sagrado pois em suas contas, mais três pontinhos já garantiria seu time na próxima fase, e nada para aquele velho coração torcedor era mais importante naquela noite. Apagou a vela, deitou ao som dos comentários do rádio, antes de dormir, desligou e dormiu o sono dos justos e sinceros torcedores de futebol.